quinta-feira, 22 de abril de 2010

ATAULFO ALVES

Ataulfo Alves de Sousa era um dos sete filhos do Capitão Severino, violeiro, sanfoneiro e repentista da Zona da Mata, nasceu em 2 de maio de 1909 na Fazenda Cachoeira, propriedade dos Alves Pereira, no município de Miraí, MG.

Com oito anos, já fazia versos, respondendo aos improvisos do pai. Com a morte deste, a família teve de se mudar para a cidade, onde aos dez anos começou a ajudar a mãe no sustento da casa: foi leiteiro, condutor de bois, carregador de malas na estação, menino de recados, marceneiro, engraxate e lavrador, ao mesmo tempo em que estudava no Grupo Escolar Dr. Justino Pereira. Aos 18 anos, aceitou o convite do Dr. Afrânio Moreira Resende, medico de Miraí, para acompanhá-lo ao Rio de Janeiro, onde fixaria residência. Durante o dia, trabalhava no consultório, entregando recados e receitas, e, a noite, fazia limpeza e outros serviços domésticos na casa do médico. Insatisfeito com a situação, conseguiu uma vaga de lavador de vidros na Farmácia e Drogaria do Povo. Rapidamente aprendeu a lidar com as drogas e tornou-se prático de farmácia. Depois do trabalho voltava para casa no bairro de Rio Comprido, onde costumava freqüentar rodas de samba. Já sabia tocar violão, cavaquinho e bandolim, e organizou um conjunto que animava as festas do bairro.

Em 1928, com apenas 19 anos, casou-se com Judite. Nessa época, em que já começara a compor, tornou-se diretor de harmonia de Fale Quem Quiser, bloco organizado pelo pessoal do bairro. Em 1933, Bide, que viria a fazer sucesso com o samba Agora e cinza (com Marçal), ouviu algumas composições suas no Rio Comprido, e resolveu apresentá-lo a Mr. Evans, diretor americano da Victor. Foi então que Almirante gravou o samba Sexta-feira, sua primeira composição a ser lançada em disco. Dias depois, Carmen Miranda, que ele havia conhecido antes de ser cantora, gravou Tempo perdido, garantindo sua entrada no mundo artístico. Em 1935, através de Almirante e Bide, conseguiu seu primeiro sucesso com Saudade do meu barracão, gravado por Floriano Belham. Seu nome cresceu muito quando apareceram as gravações do samba Saudade dela, em 1936, por Silvio Caldas e da valsa A você (com Aldo Cabral) e do samba Quanta tristeza (com André Filho), em 1937, por Carlos Galhardo, que se tornaria um dos seus grandes divulgadores. Passou a compor com Bide, Claudionor Cruz, João Bastos Filho e Wilson Batista, com quem venceu os Carnavais de 1940 e 1941, com Oh!, seu Oscar e O Bonde de São Januário.

Em 1938, Orlando Silva, outro grande interprete de suas musicas, gravou Errei, erramos. Em 1941, fez sua primeira experiência como intérprete, gravando seus sambas Leva, meu samba... e Alegria na casa de pobre (com Abel Neto). Em 1942 a situação financeira difícil e a hesitação dos cantores em gravar sua ultima composição fizeram com que ele próprio lançasse, para o Carnaval do ano, Ai, que saudades da Amélia; gravado com acompanhamento do grupo Academia do Samba e abertura de Jacó do Bandolim, o samba, feito a partir de três quadras apresentadas por Mário Lago para serem musicadas, resultou em grande sucesso popular. Juntos fizeram ainda Atire a primeira pedra, para o Carnaval de 1944, e em 1945 lançaram Capacho e Pra que mais felicidade.

Resolvido a continuar interpretando suas músicas, juntou-se a um grupo de cantoras, organizando um conjunto que, por sugestão de Pedro Caetano, foi chamado de Ataulfo Alves e suas Pastoras. Inicialmente formado por Olga, Marilu e Alda. Representativas da década de 1950, quando faziam sucesso musicas de fossa e de amores infelizes, são suas composições Fim de comedia e Errei, sim, gravadas por Dalva de Oliveira. Em 1954 participou do show O Samba nasce no coração, realizado na boate Casablanca, quando lançou o samba Pois é... O pintor Pancetti gostou muito da musica e, inspirado nela, fez um quadro com o mesmo nome, que ofereceu ao compositor. Compôs então Lagoa serena (com J. Batista), dedicando-a a Pancetti, que, novamente, o homenageou com a tela Lagoa serena.

Convidado por Humberto Teixeira, em 1961 participou de uma caravana de divulgação da musica popular brasileira na Europa, para onde levou Mulata assanhada e Na cadência do samba (com Paulo Gesta), que acabara de lançar. Retornou no mesmo ano e fundou a ATA (Ataulfo Alves Edições), tonando-se editor de suas musicas. Por essa época, desligou-se de suas pastoras – na ocasião Nadir, Antonina, Geralda e Geraldina –, passando a se apresentar sozinho, esporadicamente.

Depois de realizar em 1964 uma temporada no Top Club, do Rio de Janeiro, como sentisse piorar a úlcera no duodeno, em 1965 decidiu passar o seu titulo de General do Samba para seu filho, Ataulfo Alves Júnior. Em decorrência do agravamento da úlcera, morreu após uma intervenção cirúrgica, no Rio de Janeiro em 20 de abril de 1969.
Fonte.: Enciclopédia da Música Brasileira

ASSIS VALENTE

19/3/1911 Bahia
10/3/1958 Rio de Janeiro, RJ

Nasceu, segundo seu relato, em plena areia quente, no Caminho de Bom Jardim a Patioba, na Bahia, durante uma viagem de sua mãe. Teve uma infância conturbada, tendo sido roubado dos pais - José de Assis Valente e Maria Esteves Valente - e entregue depois a uma familia para ser criado. Trabalhava até ficar exausto durante a semana e, aos sábados, ia à tarde fazer feira com sua patroa. Vagou com um circo pelo interior, no qual, entre outras coisas, cantava: "Vejam só \ Vejam só \ A roupa que há cem anos, já usava minha avó \ Veio a vez \ veio a vez \ De cada roupa dessas se fazer duas e três". Em Salvador, trabalhou como farmacêutico, fez cursos de desenho no Liceu de Artes e Ofícios e profissionalizou-se como especialista em prótese dentária. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1927 e empregou-se como protético. Após muita luta, conseguiu publicar alguns desenhos no Shimmy, Fon-Fon, etc.

No início dos anos 1930, começou a compor sambas. Em 1932, conheceu Heitor dos Prazeres, que muito o incentivou. Em princípios de 1941, casou-se com Nadili, com quem teve sua única filha, Nara Nadili nascida em 1942. Pouco depois o casal se separou. A 13 de maio de 1941, no apogeu de sua carreira de compositor, o Rio de Janeiro foi sacudido com a notícia de que ele se tinha atirado do Corcovado e, milagrosamente preso a um galho de árvore, fora libertado por uma equipe do Corpo de Bombeiros. Mas, embora salvo, moralmente prosseguiu em sua queda do abismo. Nunca mais foi o mesmo. Seu nome foi, aos poucos, sendo esquecido e, a partir de então, só esporadicamente voltava ao cartaz. Anos depois da primeira tentativa, quando Elvira Pagã, com escândalo, cobrou-lhe uma dívida de Cr$ 4.000,00 (quatro mil cruzeiros), tentou novamente o suicídio, dessa vez com lâmina de barbear. Passou então a viver de seu laboratório de prótese dentária e esporadicamente de sua música. Mas, para pagar o laboratório, era geralmente obrigado a contrair novas dívidas. Ao contrário do que muitos pensavam, continuava a compor. Freqüentemente mostrava aos íntimos uma composição nova, de rara beleza. Compunha quase uma música por dia. Não conseguia, entretanto, gravá-las. No máximo, quando as dívidas apertavam, vendia um samba que depois, assinado por outros, fazia sucesso. A 10 de março de 1958, desesperado com sua situação financeira, resolveu suicidar-se. Deixou a casa em que morava, na Rua Santo Amaro, 112, seguiu para o seu consultório na Cinelândia, onde permaneceu até cerca das l3h30 min. Às 15 h foi à Sbacem, sociedade arrecadadora de direitos autorais à qual estava filiado, para se informar de seus rendimentos. Estava tão nervoso que o tesoureiro da Sbacem, Joubert de Carvalho, deu-lhe um sedativo. Ás 16h30 min telefonou para seu laboratório dando instruções a seus empregados do que deveria ser feito após sua morte. Às 17h30 min telefonava para seu editor, Vicente Vitale, e para o embaixador Pascoal Carlos Magno comunicando-lhes que iria se matar. Vitale ainda tentou ligar para a Polícia: era tarde. Exatamente às 17h55 min, portanto, oito dias antes de seu 47º aniversário, em um banco da Praia do Russel, junto de um play-ground onde brincavam crianças, tomou formicida com guaraná. Vestia calça azul-marinho e blusão amarelo. Em seus bolsos foram encontrados um par de óculos, uma carteira de identidade com o retrato rasgado, uma carta para a polícia e duas notas velhas de cinco cruzeiros. Na carta, entre outras coisas, esclarecia que morria por sua vontade, estando seriamente endividado, e fazia um apelo ao público para que comprasse seu novo disco "Lamento". Pedia ainda a Ary Barroso que pagasse o aluguel atrasado de duas residências. E acrescentava: "Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo".




Teresa Cristina e G.Semente
"Fez Bobagem"
Assis Valente

GERALDO PEREIRA

Geraldo Theodoro Pereira: cantor, compositor e ator. Y 23/4/1918, Juiz de Fora, MG ~ V 8/5/1955, Rio de Janeiro, RJ.

Filho de Clementina Maria Theodoro e Sebastião Maria. O casal teve quatro filhos: Manoel Araújo, Maria, Geraldo e Sebastiana.

Em 1930 Geraldo embarcou para o Rio de Janeiro para tomar conta da tendinha (botequim) no morro da Mangueira do irmão mais velho, Mané-Mané, que viajava muito por ser camareiro da Rede Ferroviária Federal. Mais tarde vieram também a mãe e as irmãs.

Geraldo fez somente o primário na Escola Pará (mais tarde Escola Primária Pública Olympia do Couto).

Seu primeiro contato com um instrumento musical foi com a sanfona de oito baixos do irmão, que dedilhava às escondidas.

Aos 14 anos empregou-se em uma fábrica de cerâmicas, onde num descuido, esmagou sua mão direita deixando-lhe seqüelas no dedo indicador. Com o dinheiro da indenização comprou um violão, que aprendeu a tocar com Aluísio Dias. Logo começou a acompanhar choros, polcas e valsas da época até descobrir que seu verdadeiro dom estaria voltado para um novo gênero musical que estava surgindo, o samba. Trabalhou também como soprador de vidro, foi apontador na Central do Brasil e acabou tornando-se funcionário da Prefeitura nos volantes dos caminhões da Limpeza Urbana, emprego este que defendeu até seus últimos dias.

Nas reuniões musicais na casa de Alfredo Português, bom poeta e pai adotivo de outro futuro grande compositor, Nélson Sargento, lapidou seus conhecimentos rítmicos e poéticos, pois ali freqüentavam Cartola, Carlos Cachaça, Nélson Cavaquinho, entre outros.

Afastou-se do morro com dezenove anos de idade, já um tímido compositor, começou a freqüentar as rodas artísticas da cidade, destacadamente as do Café Nice.

Geraldo tinha mais de 1,80 m de altura, magro, mulato puxado para negro, olhos claros, quase verdes e gostava de andar de terno branco. Era um sujeito alegre, vaidoso e mulherengo. Como muitos acham, Geraldo não era sujeito brigão, só não levava desaforo pra casa.

Seu cotidiano passou a resumir-se nos bares, gafieiras e noitadas com diferentes mulheres. Fazia de tema para os seus sambas seus casos amorosos, tanto que de suas 77 composições gravadas, 69 foram dedicadas ao sexo frágil.

Em 1938 "teve" que casar com Eulíria Salustiano, apelidada Nininha. Geraldo não gostava dela, ou melhor, gostava de todas. Eulíria teve um bebê, Celso Salustiano. No entanto, o grande amor do compositor foi Isabel Mendes da Silva, com a qual acomodou-se em um "casamento" mais pacato, porém também atribulado, repleto de rompimentos e retornos mas que perdurou até a viuvez de Isabel.

Sua primeira música gravada foi Se você sair chorando, em 1939, por Roberto Paiva.

Geraldo Pereira também foi cantor. Estreou na Rádio Tamoyo do Rio de Janeiro, no programa Vesperal das Moças, cantava suas músicas, a dos outros e jingles publicitários, alguns de sua própria autoria.

Através do amigo Herivelto Martins fez pontas em três filmes. O primeiro, realizado em 1942 por Orson Wellws no Brasil, Tudo é verdade, que não chegou a ser concluído. O segundo, Berlim na batucada, um musical da Cinédia, dirigido por Luiz de Barros em 1944. O último, também de Luís de Barros, foi O rei do samba, inspirado na vida de Sinhô, produção de 1952 da Brasil Vita Filmes.

Em 1954 veio para São Paulo na comemoração do IV Centenário da cidade para, junto com outros sambistas cariocas, participar da apresentação no Teatro Esplanada do show Brasil em fá, montado originalmente no Cassino da Urca no Rio de Janeiro por Paulo Soledade.

Um dos maiores sucessos de Moreira da Silva, Na subida do morro, creditado a ele e Ribeiro Cunha, segundo depoimento do próprio Morengueira é de Geraldo Pereira. Foi comprado por um mil e trezentos réis.

Celebrando o seu aniversário numa roda de samba com seus amigos em 1955, Geraldo, sem dar muito alarde, recolheu-se ao banheiro pálido e suando frio. Não era a primeira vez. Há mais de ano que tinha crises constante de vômito, evacuava sangue por estar com complicações intestinais e seu fígado andava em péssimo estado. Eram sintomas da vida desregrada que ele tinha. Nem assim afastava-se do vinho tinto ou de seu favorito Conhaque de Alcatrão de São João da Barra. Quinze dias depois do festejo, o compositor envolveu-se em mais uma briga, desta vez com o malandro e homossexual Madame Satã (o pernambucano João Francisco dos Santos). Geraldo, abatido por um único soco, foi internado no Hospital dos Servidores da Prefeitura onde permaneceu até falecer, aos 37 anos, no dia 8 de maio, às 18 horas. Seu atestado de óbito, não muito fiel, ficou ambíguo entre "hemorragia intestinal" e "hemorragia cerebral". Já, seus amigos garantem que ele morreu de câncer. No entanto, o mito popular alarda que Geraldo teria morrido pela pancada de sua cabeça na calçada, quando derrubado por Madame Satã. Até hoje é polêmica a razão de sua morte. Está enterrado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.

Em 1982, a Unidos do Jacarezinho, escola do segundo grupo, fez a sua pequena homenagem ao compositor com o tema Geraldo Pereira, Eterna Glória do Samba. O samba-enredo foi composto por seu amigo Monarco, com a seguinte letra:

Já lembramos vultos da nossa História
Que estão cobertos de glória
esta terra alvissareira
Hoje o artista foi feliz
Lembrou-se de uma raiz
Da música brasileira
É o orgulho da nossa Estação Primeira
Se divertia nos bailes das gafieiras
E hoje nós cantamos com prazer, para enaltecer
O nome de Geraldo Pereira.

Foi o rei do samba sincopado
Deve ser sempre lembrado
Este grande compositor
Quem não lembra
De Falsa baiana e Bolinha de papel
Que fez bamba o nosso bacharel.

Você só dança com ele
E diz que é sem compromisso
É bom acabar com isso
Não sou nenhum Pai João
E o Jacarezinho enaltece o escurinho
Que tinha a mania de brigão.

Certa ocasião, ao ser chamado de sambista, Ary Barroso reagiu: "Infelizmente, não sou sambista. Sambista mesmo é Geraldo Pereira".

Em 1977, em seu ótimo disco Espelho, João Nogueira faz sua homenagem a Geraldo e a outros dois grandes compositores, através de seu samba Wilson, Geraldo e Noel.

São do pesquisador Jairo Severiano1 as últimas palavras:

"Ele ocupou lugar de destaque no processo de evolução do samba através da valorização das síncopas e do emprego de determinadas resoluções harmônicas inusitadas nas composições da época".



1. SEVERIANO, Jairo. Encarte do disco Geraldo Pereira. Rio de Janeiro, Funarte, 1983.

Principais sucessos:

Acabou a sopa, Geraldo Pereira e Augusto Garcez, 1940
Acertei no milhar, Wilson Batista e Geraldo Pereira, 1940
Ainda sou seu amigo, Geraldo Pereira, 1946
Até hoje não voltou, Geraldo Pereira e J. Portela, 1946
Bolinha de papel, Geraldo Pereira, 1945
Cabritada malsucedida, G. Pereira, Wilton Wanderley e Jorge Gebara, 1953
Chegou a bonitona, Geraldo Pereira e José Batista, 1948
Chegou o dia, Geraldo Pereira e Elpídio Viana, 1945
Escurinha, Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1952
Escurinho, Geraldo Pereira, 1955
Falsa baiana, Geraldo Pereira, 1944
Golpe errado, Geraldo Pereira, David Nasser e Cristóvão de Alencar, 1946
Liberta meu coração, Geraldo Pereira e José Batista, 1947
Minha companheira, Geraldo Pereira, 1949
Ministério da Economia, Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1951
Onde está a Florisbela?, Geraldo Pereira e Ary Monteiro, 1944
Pedro do Pedregulho, Geraldo Pereira, 1950
Pisei num despacho, Geraldo Pereira e Elpídio Viana, 1947
Pode ser?, Geraldo Pereira e Marino Pinto, 1941
Que samba bom, Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1949
Resignação, Geraldo Pereira e Arnô Provenzano, 1949
Se você sair chorando, Geraldo Pereira e Nélson Teixeira, 1939
Sem compromisso, Geraldo Pereira e Nélson Trigueiro, 1944
Você está sumindo, Geraldo Pereira e Jorge de Castro, 1943

FRANCISCO ALVES

1898–1952
Cantor, compositor e violonista brasileiro nascido no bairro carioca da Saúde, RJ, um dos mais famosos cantores brasileiros de todos os tempos, com uma carreira de 35 anos ininterruptos de atividade, cognominado o Rei da Voz. Filho do comerciante imigrante português José Alves e de Isabel Morais Alves, teve quatro irmãos, Ângela, José, que tinha uma bonita voz, mas faleceu aos 18 anos, vítima da gripe espanhola, Lina, que trabalhava como atriz de revista e radioatriz e na vida artística adotou o pseudônimo de Nair Alves, e Carolina. Passou uma infância tranqüila nas ruas de seu bairro e aos nove anos de idade a família mudou-se para a rua Evaristo da Veiga onde passou a freqüentar o colégio. Por essa época, costumava assistir aos ensaios das bandas de música de Batalhões da Polícia Militar situados na vizinhança, e também já demonstrava o gosto pelo canto, e começou a aprender violão com a irmã Nair/Lina. Empregou-se na fábrica de chapéus Mangueira (1916) onde permaneceu por aproximadamente um ano. Com a morte do pai (1919), e o casamento das irmãs, passou então a viver em companhia de sua mãe e fez seu primeiro teste com o maestro Antônio Lago, pai do ator Mário Lago. Gravou seu primeiro disco e fez sucesso no carnaval (1920) e no mesmo ano casou-se com Perpétua Guerra Tutoya Ceci, e uma semana depois já estavam separados. No mesmo ano conheceu Célia Zenatti, dançarina e atriz, com quem viveu durante 28 anos, até o fim de sua vida. Começou a gravar na Odeon e tornou-se a maior estrela da gravadora, firmando-se como recordista em gravações e vendagem de discos. Foi o primeiro artista brasileiro a gravar pelo sistema elétrico, inaugurado pela Odeon (1927). Transferiu-se pouco depois para a Parlophon, momento em que adotou o pseudônimo de Chico Viola e estreou no rádio, atuando na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (1928). Cantou em várias rádios além da Sociedade, tais como Mayrink Veiga, Cajuti e Nacional. Passou a formar dupla (1930) com o cantor Mário Reis, alcançando grande sucesso, gravando juntos um total de 12 discos na Odeon. Excursionou a Buenos Aires (1932) com Mário Reis, Carmen Miranda, Luperce Miranda e Tute. No ano seguinte, assinou contrato com a Rádio Mayrink Veiga e destacou-se com a gravação de Fita amarela, de Noel Rosa, sua última gravação em dupla com Mário Reis, que fez grande sucesso no carnaval (1933). Deixou a Odeon (1934) passando para a RCAVictor. Fez sua primeira aparição no cinema em Alô, alô, Brasil (1934) e depois participou de Alô, alô, carnaval (1936). Foi responsável pela primeira gravação de Aquarela do Brasil (1939), de Ary Barroso, com arranjo antológico de Radames Gnatalli e participou do filme Laranja da China (1940). Transferiu-se para a gravadora Columbia onde gravou um total de 14 discos. Reapareceu no cinema em Berlim na batucada e Caídos do céu (1944) e Apaixonou-se por Iraci, sua companheira dos últimos quatro anos de vida. Morreu carbonizado, no alto do sucesso, vitimado por um acidente na Estrada Rio-São Paulo, na rodovia Dutra, quando voltava de uma viagem à capital paulista, tendo ao lado o amigo Haroldo Alves, em um Buick por ele mesmo dirigido foi atingido por um caminhão que vinha na contramão e o cantor morreu instantaneamente, próximo à cidade de Pindamonhangaba (SP), entre Pindamonhangaba e Taubaté, SP, no dia 27de setembro (1952), aos 54 anos. Seu enterro, no cemitério de São João Batista, Rio, foi acompanhado por meio milhão de pessoas, quando pela primeira vez um carro do Corpo de bombeiros transportaria um morto. Três anos após seu falecimento, foi lançado o filme Chico Viola não morreu, com Cyl Farney no papel do cantor. O mais famoso de nossos cantores populares, O Rei da Voz, como também ficou conhecido alcunhado (1933) por César Ladeira, fez 983 gravações. Foi o cantor que mais gravou no Brasil e também foi um bom compositor. Criou mais de 130 músicas. Foi um dos mais carismáticos cantores de todos os tempos e emocionava todos que o viam cantar, até mesmo seus músicos. Entre seus sucessos foram destaques musicais O pé de anjo (1919), Malandrinha (1926), A voz do violão (1928), Se você jurar (1930), O que será de mim (1931), Formosa (1932),Caboca (1933), Dei-te meu coração (1934), Sem ela (1935), Longe dos olhos (1936), Serra da Boa Esperança (1937), Brasil (1939), Dama das camélias (1939), Onde o céu azul é mais azul (1940), Canta, Brasil (1941), Eu sonhei que tu estavas tão linda (1941), Céu cor-de-rosa (1943), Canção do expedicionário (1944), Caminhemos (1947), Adeus (1947), Cadeira vazia (1949), Confeti (1951) e Canção da criança (1952).
Fonte.: Net Saber


ORLANDO SILVA

Orlando Garcia da Silva nasceu em 1915, no Engenho de Dentro, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro, e foi criado nas camadas mais humildes do subúrbio carioca.

Sua casa respirava música popular. Seu pai, ferroviário, era ótimo violonista, tendo tocado com Pixinguinha. Mas morreu quando ele tinha apenas três anos, vítima da gripe espanhola, em 1918. Sua mãe, lavadeira, casou-se de novo - com um guarda municipal, com quem teve quatro filhos (além dos três do primeiro casamento).

A infância e a adolescência de Orlando Silva foram sacrificadas. Muito cedo - logo após o primeiro ano do primeiro grau - ele viu-se obrigado a parar de estudar, indo trabalhar para ajudar no sustento da casa. Foi carregador de marmitas, estafeta, operário numa fábrica de cerâmica, aprendiz de sapateiro e trocador de ônibus.

Quando tinha 16 anos de idade, seu padrasto morreu louco e aconteceu o acontecimento mais trágico de sua vida. Ele tentou tomar um bonde em movimento e sofreu um acidente - a roda pegou seu pé esquerdo - que lhe custou a amputação de alguns dedos. Permaneceu quatro meses internado numa enfermaria, onde, para aliviá-lo das fortes dores, os médicos lhe aplicaram morfina. Orlando ficou com um defeito para o resto da vida, o de puxar da perna.

Moço introvertido, ele só superava a timidez quando cantava - em festinhas e rodas de amigos. A idéia de cantar profissionalmente veio depois do acidente. Era uma saída, para quem tinha o seu problema físico. De início, ele foi ser trocador de ônibus, onde podia trabalhar sentado e onde cantarolava: assim, logo se tornou conhecido de muitos passageiros, que passaram a incentivá-lo a tentar a carreira artística.

Mulato claro, trajando-se modestamente, o tipo exato do carioca suburbano da época, ele fazia "o modelo do antimodelo de artista e de grande ídolo, ainda mais puxando de uma perna", nas palavras de seu biógrafo Jonas Vieira. Por isso mesmo, os diretores de rádios negaram-lhe crédito naqueles tempos.

O compositor e grande boêmio carioca Bororó foi quem se dispôs a ouvi-lo cantar atentamente. Em seguida, tomou a iniciativa de apresentá-lo ao cantor Francisco Alves, insistindo para que este o escutasse.

Chico Alves o lançou no programa que tinha na rádio Cajuti, em 1934, e o ajudou no início de carreira, instruindo-o na forma de usar o microfone e na condução dos negócios.

Quis também lhe dar o nome artístico de Orlando Navarro. Com isso o jovem cantor não concordou, acatando, sim, a sugestão de Orestes Barbosa, de se chamar simplesmente Orlando Silva.

Orlando Silva foi o primeiro grande ídolo de massas que apareceu no Brasil. Nos anos do auge de sua trajetória, nenhum outro artista obteve tanta popularidade quanto ele no país. Suas apresentações ao ar livre atraíam então imensas concentrações de pessoas, daí ele ter recebido o epíteto de "O Cantor das Multidões".

Seu sucesso nessa fase - segunda metade da década de 30, primeira da seguinte - já foi comparado ao que Frank Sinatra teve, mas somente alguns anos depois, nos Estados Unidos. Moças e mulheres gritavam e desmaiavam à sua aparição, correndo atrás dele para agarrá-lo ou rasgar-lhe a roupa.

Nesse sentido, no contexto nacional, ele precedeu também, em quase trinta anos, a Roberto Carlos.

Mesmo com tanto êxito, Orlando Silva nunca abriu mão da qualidade do trabalho, a começar do repertório que gravou e cantou.

O ponto alto da sua carreira e da sua voz coincidiu com o tempo de contratado pela RCA Victor (hoje BMG), de 1935 a 1942. Mais ou menos a partir de 1945, porém, a voz começou a dar mostras de um problema que afetou a sua sonoridade cristalina, seu timbre perfeito e os seus agudos suavíssimos.

Orlando Silva se tornou o primeiro nome consagrado da música brasileira que sucumbiu ao uso de drogas pesadas. A sua ascensão meteórica teve um relativo ostracismo subsequente; da glória, consolidada pela paixão das massas, ele quase conheceu a obscuridade. Foi portanto uma trajetória tormentosa - e uma existência atribulada - a sua.

Apesar do problema vocal, sua interpretação se manteve a mesma até o fim de sua carreira, nos anos 70: excelente. Embora alguns (jornalistas sobretudo) considerem vertiginoso o declínio de sua voz, para outros (artistas principalmente), nenhum outro cantor do passado se comparou a ele mesmo em sua fase decadente.

Fonte.: site de Geraldo Freire

JACOB DO BANDOLIM

Manifestação maior de nossa música popular instrumental, o choro sustenta essa fama graças à presença de músicos extraordinários em suas sucessivas gerações de chorões. Assim é que enquanto ainda brilhava a estrela de Pixinguinha, surgia Jacob do Bandolim para se tornar o grande nome do choro na Segunda metade do século.

Filho único do farmacêutico Francisco Gomes Bittencourt e de Raquel Pick, uma polonesa foragida da Primeira Grande Guerra, Jacob Pick Bittencourt nasceu (em 14.02.1918) e foi criado no bairro carioca da Lapa. Percebendo a sua atração pela música, a mãe deu-lhe aos doze anos um violino, logo substituído por um bandolim, instrumento que ele desejava sem saber bem por que. Aplicado, persistente e dotado de vocação para o auto-didatismo, Jacob, ainda adolescente, já podia ser considerado um bom bandolista, com razoável domínio do cavaquinho e do violão. Isso o animou a formar um pequeno conjunto para acompanhá-lo em participações em programas radiofônicos, o que o levaria à profissionalização. Como o que ganhava com a música era pouco, exerceu paralelamente as atividades de vendedor-pracista, prático de farmácia e corretor de seguros até 1940, quando, a conselho do compositor Donga, prestou concurso e foi nomeado escrevente juramentado da Justiça do Rio de Janeiro. Na ocasião, casado com Adília, já era pai de Sérgio e Helena.

Depois de muitos anos de rádio e participações em gravações alheias, Jacob gravou em 1947 o seu primeiro disco solo, um 78 rpm da Continental que apresentava o choro "Treme-Treme", de sua autoria (Faixa 3 desse CD), e a valsa "Glória", de Bonfiglio de Oliveira (faixa 11). Ainda na Continental, gravaria nos anos seguintes mais seis fonogramas, cinco dos quais aqui reeditados: "Flamengo", de Bonfiglio (faixa 7), "Flor amorosa", de Calado (faixa 9), "Cabuloso"(faixa 11), "Remelexo"(faixa 5) e "Salões Imperiais"(faixa 13), de sua autoria. Em 1949 transferiu-se para a RCA, onde gravaria até o final da vida um total de 47 discos 78 rpm, vários compactos e mais de dez LPs. Gravaria ainda, na CBS, a suíte "Retratos", composta especialmente para ele por Radamés Gnattali.

Além do músico virtuoso, que revolucionou a técnica do bandolim criando uma nova maneira de tocá-lo e elevando-o à categoria de principal instrumento solista do choro, ao lado da flauta, Jacob entra para a história da PB como um excelente compositor, responsável por obras-primas como "Doce de Coco", "Noites Cariocas", "Salões Imperiais" e "Vibrações", entre outras. O mais surpreendente é que ainda arranjou tempo para dedicar-se à pesquisa musical, sempre com a seriedade e o espírito de organização que o caracterizavam.

Fiel ao preceito de que o êxito do solista muito dependente da competência dos músicos que o acompanham, Jacob jamais abriu mão de sua total liderança sobre os conjuntos com os quais atuou. Segundo Sérgio Cabral, seus companheiros sabiam bem que diante de um erro, "bastava um simples olhar seu, mais violento do que qualquer espinafração". O mais importante conjunto ligado a Jacob, que sobreviveu ao seu desaparecimento, é o Época de Ouro. Formado em 1959, quando o mestre lança o LP homônimo, o grupo tem como núcleo básico os violonistas Horondino Silva (Dino 7 Cordas), César Faria e Carlos Carvalho Leite (Carlinhos) e o pandeirista Jorge da Silva (Jorginho do Pandeiro). Esses quatro, mais o cavaquinista Jonas Pereira da Silva e o bandolinista Déo Rian, estão na formação que impregnada do espírito jacobiano, completa esse CD interpretado os clássicos "Noites cariocas"(faixa 2), "Diabinho maluco"(faixa 4), "de Limoeiro a Mossoró" (faixa 6), do próprio Jacob, "Choro negro"(faixa 8), de Paulinho da Viola e Fernando Costa, "O boêmio"(faixa 10), de Anacleto de Medeiros e Catulo Cearense, "1X0" (faixa 12), de Pixinguinha e "Evocação a Jacob"(faixa 14), de Avena de Castro.

Jacob Bittencourt morreu aos 51 anos de enfarte do miocárdio, na sexta-feira, 13 de agosto de 1969. Na ocasião, regressava de uma visita a Pixinguinha, seu ídolo maior.

(Jairo Severiano)

* Biografia compilada do encarte da Enciclopédia Musical Brasileira distribuído pela Warner Music Brasil Ltda.

BRAGUINHA

Carlos Alberto Ferreira Braga, nascido no Rio de Janeiro, sob o signo de Áries, em 29 de março de 1907, foi o primogênito de um casal de classe média : Jerônimo José Ferreira Braga Neto e Carmen Beirão Ferreira Braga.

Residente na Gávea, tendo também Botafogo como cenário de sua infância, passou sua adolescência em Vila Isabel, onde seu pai era diretor da Fábrica de Tecidos Confiança.

Cursou o ginasial no Colégio Batista, onde conheceu Henrique Brito, violonista, que lá foi estudar com uma bolsa de estudos que ganhara do então governador de sua terra natal (RN), tamanho eram seus dotes de instrumentista. Essa amizade despertou em Braguinha o interesse e a vocação pela música, fazendo com que ele, aos 16 anos, compusesse sua primeira obra (letra e música), de nome Vestidinho Encarnado.

Bando dos Tangarás, 1930 Foi essa mesma paixão pela música que acabou por reunir colegas de colégio e amigos, surgindo em meados de 1928 um grupo chamado Flor do Tempo. Formado basicamente por Braguinha, Henrique Brito, Alvinho, Noel Rosa e Almirante, apresentavam-se em casas de amigos e clubes.

Impulsionados por Almirante, em 1929, transformariam-se no Bando dos Tangarás, gravando 19 músicas, sendo 15 de autoria de Braguinha.
Chamado de Carlinhos na família e de Braguinha pelos amigos, foi com esse grupo que surgiu João de Barro. Estudante de arquitetura, inspirou-se no pássaro arquiteto para criar o pseudônimo, uma vez que seu pai não queria o nome de família envolvido com música popular, devido aos preconceitos que marcavam essa época.

O Bando dos Tangarás desfez-se em 1933, mas foi durante sua existência que sua carreira começou a se afirmar. Braguinha fez parte da geração que cantou e encantou a chamada "Era de Ouro" do carnaval brasileiro (1930/1942).

Em 1934, o então João de Barro conheceu duas pessoas que marcariam sua carreira: Alberto Ribeiro, seu maior parceiro e Wallace Downey, um americano que o conduziu a carreira do cinema e da indústria de discos.
Uma das facetas pouco divulgadas de Braguinha foi sua participação como roteirista e assistente de direção em filmes da Cinédia. Juntamente com Alberto Ribeiro, escreveu argumentos e composições para a trilha sonora de filmes como Alô, Alô, Brasil e Estudantes, cuja personagem principal Mimi foi estrelada por Carmem Miranda.

Atuou como diretor artístico da Columbia, no Rio de Janeiro, participando da escolha de repertório e formação de elenco, componentes fundamentais para o sucesso que a gravadora viria a ter no mercado fonográfico.

No cenário da música popular brasileira, continuou compondo sucessos, destacando-se o inesquecível Carinhoso (1937, com Pixinguinha), um de seus maiores sucessos internacionais, e Sonhos Azuis (1936, com Alberto Ribeiro).

Em 28 de janeiro de 1938, casou-se com Astréa Rabelo Cantolino, indo morar na Tijuca.

Ano marcante em sua vida, teve neste carnaval nada menos que 3 marchas que se tornaram clássicos até hoje executados: Pastorinhas (com Noel Rosa), Touradas em Madri e Yes, nós temos bananas (com Alberto Ribeiro).

Também em 1938, foi um dos responsáveis pela dublagem brasileira de Branca de Neve e os sete anões, de Walt Disney, o primeiro desenho animado em longa metragem da história do cinema. Também participou das versões brasileiras de Pinóquio (1940), Dumbo (1941), Bambi (1942), dentre muitos outros.

Certamente sua esposa Astréa lhe trouxe sorte, além de uma alegria ímpar: em 02 de julho de 1939, nasceu Maria Cecília, sua única filha.

Casamento de Braguinha e Astréa, 1938

Apaixonado que ficou por estórias infantis, escreveu e adaptou, também musicando, diversas historinhas como Os três porquinhos, Festa no céu, Chapeuzinho Vermelho, e tantas quantas pudermos lembrar em nossa infância.

Em 1939, comporia Noites de Junho (com Alberto Ribeiro), gravada por Dalva de Oliveira, que seria um dos seus grandes sucessos no gênero junino.

Sucederam-se inúmeras composições de carnaval, tendo em 1941, com parceria de Alberto Ribeiro, feito a versão de Valsa da Despedida, tema do filme A ponte de Waterloo.

Aliás, como autor de versões, Braguinha brilhou em diversas canções com parceiros internacionais como Charles Chaplin em Luzes da Ribalta e Sorri, atualmente regravada por Djavan, e também tema do anúncio de uma grande rede de lojas carioca, em 1996.

Extinta a Columbia no Brasil, em 1943, nasceu a Continental, também tendo Braguinha na direção artística.

Gravação de "Copacabana", com Dick Farney, nos estúdios da Gravadora Continental, 1946 Um de seus maiores sucessos internacionais seria composto em 1944: Copacabana, gravada por Dick Farney, com orquestração de Radamés Gnattali, em 1946.

Foi o primeiro grande sucesso da Continental, e é a segunda composição mais gravada do repertório de Braguinha, tendo inúmeros intérpretes em diversas regravações.

Em 1947, comporia outro sucesso traduzindo seu amor carioca: Fim de semana em Paquetá, também em parceria com Alberto Ribeiro.

Na sua linha carnavalesca, viriam as composições Anda Luzia (1947), Tem gato na tuba (1948), A mulata é a tal (1948) e Chiquita Bacana (1949).

Braguinha, em 1950, seria um dos fundadores da Todamérica, gravadora e editora musical, que em 1960 passaria apenas a atuar como editora.

Sua filha Maria Cecília casaria em 1959, com o psiquiatra Jadyr de Araujo Góes, proporcionando-lhe então mais emoções, traduzidas nos seus 3 netos: Carlos Alberto, Maria Luiza e Maria Claudia.

Teve inicio, em fins de 1960, o declínio da canção carnavalesca tradicional. Ainda assim, Braguinha lançaria o sucesso Garota de Saint-Tropez (1962), tendo Jota Junior como parceiro.

Em 1979, Gal Costa regravaria Balancê, que o colocaria novamente em destaque no já novo cenário da MPB. Em 1985, em parceira com César Costa Filho, comporia Vagalume, vencedora de concurso musical da TV Manchete.

Teve dois espetáculos montados em sua homenagem:. O Rio amanheceu cantando, na boite Vivará, em 1975, e Viva Braguinha, na Sala Sidney Miller, em 1983.

Recebeu o Prêmio Shell para Música Brasileira, no Teatro Municipal, em 1985.

Desfile na Mangueira, 1984 Teve sua grande consagração carnavalesca em 1984, ano da inauguração do Sambódromo, desfilando como tema da Mangueira, escola campeã deste mesmo ano com o samba enredo Yes, nós temos Braguinha. O nome deste samba se transformou no título de sua primeira biografia, excelente trabalho de Jairo Severiano.

Braguinha é assim, sucesso e carisma. Nunca soube ler música e só compõe de ouvido. Mas soube contagiar a multidão que, pedindo bis,fez com que a Mangueira retornasse ao desfile, desta vez percorrendo, no sentido contrário, a Marquês de Sapucai.

BIS para aquele que é e sempre será uma das figuras mais importantes da nossa música popular brasileira.

Parabéns, BRAGUINHA, CARLINHOS e JOÃO DE BARRO !

JORGE VEIGA

Jorge Veiga (Jorge de Oliveira Veiga), cantor e compositor, nasceu no Rio de Janeiro/RJ em 6/12/1910 e faleceu em 29/5/1979. Nascido no subúrbio do Engenho de Dentro, Jorge trabalhou desde menino como engraxate, vendedor de bananas e em biscates.

Costumava cantarolar enquanto trabalhava, e sua oportunidade surgiu quando executava serviços de pintor de paredes num armazém cujo proprietário tinha contatos na Rádio Educadora do Brasil. Levado ao Programa Metrópolis, estreou em 1934, cantando no estilo de Sílvio Caldas, um dos intérpretes de maior prestígio na época. Por influência de Heitor Catumbi e, depois, Rogério Guimarães, resolveu mudar de estilo.

Integrante do elenco da Rádio Tupi a partir de 1942, o cantor firmou-se sobretudo como intérprete de sambas malandros e anedóticos e ainda de sambas de breque, característica marcante de seu repertório, merecendo de Paulo Gracindo, em cujo programa atuava, o nome de Caricaturista do Samba.

Estreou no disco com a gravação do samba Iracema (Raul Marques e Otolino Lopes), grande sucesso do Carnaval de 1944. Nos anos seguintes alcançou novos êxitos, interpretando Rosalina e Cabo Laurindo (ambas de Haroldo Lobo e Wilson Batista) e Na minha casa mando eu (Ciro de Sousa), em 1945; Vou sambar em Madureira (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira) e Pode ser que não seja  (Antônio Almeida e João de Barro), em 1946.

No Carnaval de 1947, sua interpretação da marcha Eu quero é rosetá (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira), alcançou enorme sucesso. Na Rádio Tupi, e a partir de 1951 na Rádio Nacional, ficou famoso pela fórmula, criada por Floriano Faissal, com a qual iniciava seus programas: "Alô, alô senhores aviadores que cruzam os céus do Brasil, aqui fala Jorge Veiga, da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. Estações do interior, queiram dar os seus prefixos para guia de nossas aeronaves".

Como compositor, em 1955 lançou, em parceria com José Francisco (Zé Violão), o samba Aviadores do Brasil, entre outros. Durante a década de 1950, obteve seus maiores sucessos com as gravações dos sambas Estatutos de gafieira (Billy Blanco), lançado em 1954, e Café Soçaite (Miguel Gustavo), em 1955.

No ano seguinte lançou o LP Boate Tralalá, cuja música-título é de Miguel Gustavo. Bigorrilho (Paquito, Sebastião Gomes e Romeu Gentil) foi grande êxito no Carnaval de 1964. Em 1971 gravou, com Ciro Monteiro, o LP De leve, pela RCA Victor, em que cantaram seus respectivos repertórios, em dupla ou sozinhos. Em 1975 gravou na Copacabana o LP O melhor de Jorge Veiga.

NELSON CAVAQUINHO

29/10/1911 Rio de Janeiro, RJ
18/2/1986 Rio de Janeiro, RJ
 
Nasceu na Rua Mariz e Barros, no bairro da Tijuca, Rio de Janeiro. O pai, Brás Antônio da Silva, era contramestre da Banda da Polícia Militar e tocava tuba. A mãe, Maria Paula da Silva, foi lavadeira do Convento de Santa Teresa. O tio, também músico, juntamente com o pai e amigos, organizava, aos domingos, rodas de samba em sua casa.

Por volta de 1919, a família, fugindo de aluguel, mudou-se para a Rua Silva Manuel, depois para a Rua Joaquim Silva, ambas na Lapa.

Freqüentou a escola primária Evaristo da Veiga, abandonando o curso para trabalhar como eletricista. Na Lapa, fez amizade com os então chamados "valentes": Brancura, Edgar e Camisa Preta. Mais tarde, adolescente, foi morar com a família no subúrbio de Ricardo de Albuquerque para, finalmente, se estabelecerem em uma vila operária do bairro da Gávea, onde freqüentava os bailes dos clubes Gravatá, Carioca Musical e Chuveiro de Ouro, conhecendo músicos decisivos em sua formação, como Edgar Flauta da Gávea, Heitor dos Prazeres, Mazinho do Bandolim e o violonista Juquinha. Alguns desses músicos eram empregados de uma fábrica de tecido local. Do violonista Juquinha, receberia importantes noções de como tocar cavaquinho. Nesta época, Nelson Cavaquinho cunhou a sua marca e também a maneira peculiar de tocar o instrumento apenas com dois dedos, ganhando, a partir daí, o apelido de Nelson do Cavaquinho. Aos 16 anos, sem dinheiro para comprar o instrumento e pagar um professor, treinava em cavaquinho emprestado. Por essa época, trabalhava, também, como pedreiro e compôs a sua primeira música, o choro "Queda". Apresentou-o aos músicos amigos Juquinha, Eugênio, Mazinho e Filhinho, que formavam um conjunto de choro e samba. Logo depois, foi chamado para integrar o conjunto, que atuava em shows nos clubes da redondeza da Gávea. Ainda nesta época, freqüentava a roda de choro que acontecia na Rua da Conceição, no centro do Rio de Janeiro, na qual se reuniam músicos como os irmãos Romualdo e Luperce Miranda. Apesar de tocar bem o cavaquinho, era sempre necessário pedi-lo emprestado. Ao vê-lo nessa situação, Ventura, um jardineiro português, deu-lhe de presente o instrumento.

Em 1931, conheceu Alice Ferreira Neves. Meses depois, arrastado para a delegacia pelo pai da moça, casava-se com Alice, com quem teve quatro filhos. O casal foi morar no subúrbio de Brás de Pina. O pai de Alice indicou-o para servir na Cavalaria da Polícia Militar. Por essa época, o pai de Nelson Cavaquinho alterou a sua certidão de nascimento para 29/10/1910, um ano mais velho, para que pudesse ingressar na cavalaria. Nelson Cavaquinho e seu cavalo de nome "Vovô" patrulhavam o Morro da Mangueira, local onde fez amizade com sambistas como Zé Com Fome (Zé da Zilda) e Carlos Cachaça. Ao conhecer Cartola, na Quadra da Mangueira, e depois de ficar muito tempo conversando com este, seu cavalo Vovô voltou sozinho para o Batalhão, o que ocasionou mais uma vez, a sua detenção. Ficar detido era comum naquela época, já que passava dias sem ir ao quartel, em decorrência da boemia. Sobre este fato narrou: "Eu ia tantas vezes em cana que já estava até me acostumado com o xadrex. Era tranqüilo, ficava lá compondo. Entre as músicas que fiz no xadrex está 'Entre a cruz e a espada' ". No ano de 1938, antes de ser expulso da corporação, conseguiu dar baixa e, separado da mulher e afastado dos filhos, ingressou, de vez, na boemia e dedicou-se à música. Foi morar na Mangueira em 1952.

Teve vários relacionamentos até que, no início da década de 1960, conheceu Durvalina, trinta anos mais nova do que ele, com quem viveu até a sua morte, ocorrida na madrugada de 18 de fevereiro de 1986, vitimado por um enfisema pulmonar.

Em sua homenagem, ao CIEP do bairro da Chatuba (em Mesquita), foi dado seu nome, graças aos esforços dos professores Sérgio Fonseca e Alda Fonseca. Na ocasião da inauguração, houve um show de Guilherme de Brito e Velha-Guarda da Mangueira.

Sobre sua forma de levar a vida, sempre na boemia, uma passagem muito interessante foi descrita pelo parceiro Eduardo Gundin que lembra do dia em que dirigindo o carro, ligou o rádio e passou a ouvir uma entrevista do compositor para o programa "Balance", da Excelsior. "A certa altura, o apresentador perguntou a Nelson quais eram os seus planos. E ele: 'Meus planos? O Gudin vai passar aqui para me pegar e vamos beber no Bar do Alemão'".

Fonte.: Dicionário MPB


JAMELÃO

12/05/1913, Rio de Janeiro (RJ)
14/06/2008, Rio de Janeiro (RJ)

Filho de um pintor de paredes, José Bispo Clementino dos Santos foi engraxate, vendedor de jornal e tocador de tamborim e cavaquinho nos subúrbios cariocas.

Aos 15 anos conheceu o sambista Lauro Santos, que o levou à Escola Estação Primeira de Mangueira, onde começou tocando tamborim, na bateria. Com o tempo, entrou nas rodas de samba que aconteciam após o desfile, na Praça Onze.

Ganhou o apelido de Jamelão quando se apresentava em gafieiras da capital fluminense. Já a alcunha de "Gogó de ouro" veio por causa de sua bela voz, de enorme versatilidade.

Em 1945 participou do programa "Calouros em Desfile", comandado por Ary Barroso, interpretando "Ai, que Saudades da Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago. A partir daí conseguiu trabalhos em boates e no rádio. Também assinou um contrato com a gravadora Continental.

Em 1949, começou a sua carreira como intérprete da Mangueira. Três anos depois viajou para a França como crooner da Orquestra Tabajara, do maestro Severino Araújo, para cantar em uma festa promovida por Assis Chateaubriand e pelo estilista francês Jacques Fath. Ainda como crooner, Jamelão protagonizou um "duelo" ocorrido no auditório da antiga rádio Tupi entre a Orquestra Tabajara e a big band norte-americana de Tommy Dorsey.

Na gravadora Continental, em 1954, obteve destaque com as músicas "Leviana" (Zé Keti e Armando Reis), "Folha Morta" (Ari Barroso) e "Deixa de Moda" (Padeirinho). Dois anos depois, fez sucesso com "Exaltação à Mangueira" (Enéias Brito e Aluísio Augusto da Costa), feita para o desfile daquele ano. Em 1959, gravou "Ela Disse-me Assim" de Lupicínio Rodrigues.

Jamelão entrou para a ala de compositores da Mangueira em 1968. Quatro anos depois, gravou o disco "Jamelão Interpreta Lupicínio Rodrigues", acompanhado pela Orquestra Tabajara. A seguir, lançou o LP "Jamelão", que incluía "Coquetel de Sofrimento" e "Castigo e Molambo". Em 1987, outro disco dedicado a Lupicínio Rodrigues, "Recantando Mágoas - A Dor e Eu" fez os críticos o colocarem como um cantor de músicas de "dor de cotovelo", enquanto Jamelão preferia considerar-se um "cantor romântico".

Personalidade forte

No carnaval de 1990, Jamelão anunciou o fim da sua carreira de intérprete de escola de samba; mas no ano seguinte, ele voltou a ativa. De personalidade forte e com muitas manias, tinha o costume de andar com uma caixa cheia de elásticos no bolso e alguns deles nas mãos. Dizia que iria utilizá-los no dia em que ganhasse bastante dinheiro.

Em 1994, Jamelão gravou com Caetano Veloso, Gal Costa, Gilberto Gil e Maria Bethânia o samba "Atrás da Verde e Rosa Só Não Vai Quem Já Morreu", de Davi Corrêa, Carlinhos Sena, Bira do Ponto e Paulinho Carvalho. Em 1997, a gravadora Continental lançou a coletânea "Jamelão - A Voz do Samba", em 3 CDs.

Nesse ano Jamelão também participou da gravação do CD "Chico Buarque da Mangueira". No carnaval de 1998, conquistou seu sexto Estandarte de Ouro como intérprete de samba-enredo no carnaval carioca, do qual também foi eleito intérprete do século, no ano seguinte.

Em 2001 foi eleito presidente de honra da Mangueira. No mesmo ano recebeu a medalha da Ordem do Mérito Cultural, pelas mãos do presidente Fernando Henrique Cardoso.

Jamelão tinha hipertensão e diabetes. Em 2006, sofreu dois derrames e passou a ter dificuldades para se alimentar. No fim de 2007, foi internado com um quadro de desnutrição e desidratação. Outros problemas decorrentes da idade avançada resultaram em novas internações e na morte, por falência múltipla dos órgãos, aos 95 anos.

ZÉ KETI

José Flores de Jesus
16/9/1921 Rio de Janeiro, RJ
14/11/1999 Rio de Janeiro, RJ
 
Cantou o samba, as favelas, a malandragem e seus amores. Nasceu no bairro de Inhaúma, em 16 de setembro de 1921, embora tivesse sido registrado, em 6 de outubro. Em 1924, foi morar em Bangu na casa do avô, o flautista e pianista de João Dionísio Santana, que costumava promover reuniões musicais em sua casa, das quais participavam nomes famosos da música popular brasileira como Pixinguinha, Cândido (Índio) das Neves, entre outros. Filho de Josué Vale da Cruz, um marinheiro que tocava cavaquinho, cresceu ouvindo as cantorias do avô e do pai. Após a morte do avô, em 1928, mudou-se para a Rua Dona Clara.

Mudou-se para Bento Ribeiro em 1937 e, logo depois, passou a freqüentar a Portela por intermédio do compositor Armando Santos, diretor da escola. Em 1940, ingressou na Polícia Militar, onde serviu por três anos. Em1945, entrou para o grupo de compositores da Portela - que ainda não era estruturado como "ala" - escola que mais tarde assumiu como a sua de coração. Em 1950, afastou-se da escola por problemas em relação à autoria de algumas composições e foi para a União de Vaz Lobo (1954), só retornando à Portela no início da década de 1960. Em 1960, abriu uma barraca de peixes na Praça Quinze, em sociedade com Luiz Paulo Nogueira, filho do senador udenista Hamilton Nogueira. Foi responsável pela revitalização do samba, na época em que surgiu a bossa nova. Zé Quietinho ou Zé Quieto eram os seus apelidos de infância. Quieto virou Kéti porque a inicial K do nome artístico era a letra que na época era vista como de sorte, nomeava estadistas como Kennedy, Krushev e Kubitscheck. O próprio sambista divulgou a versão numa de suas falas do Show Opinião, estrelado por ele de 1964 a 1965 ao lado de Nara Leão e João do Vale.

No início dos anos 1970, separou-se da segunda mulher - com a primeira teve cinco filhos - e foi para São Paulo.

Nesta época, tinha uma firma de reforma de prédios, a Ortensur. Além disso, acumulava os cargos de funcionário público e representante de um laboratório farmacêutico.

Em 1974, criou o serviço de transportes marítimos São Gonçalo - Paquetá, através da Marketti Transportes Marítimos LTDA. Em 1987, no início de julho, teve o primeiro derrame cerebral. Fixou residência em São Paulo, no bairro da Consolação, morando com o filho José Carlos. Em 1995, voltou para o Rio e foi morar com uma das filhas. Continuou compondo, cantando e lançou um disco. Em janeiro de 1999, recebeu a placa pelos 60 anos de carreira na roda de samba da Cobal do Humaitá. Em agosto, com a morte de sua ex-mulher, entrou em profunda depressão. Morreu a 14 de novembro, aos 78 anos, de falência múltipla dos órgãos.
Fonte.: Dicionário MPB


DALVA DE OLIVEIRA

1917 - 1972

Intérprete de música popular brasileira nascida na cidade de Rio Claro, no interior de São Paulo, cuja extensão de sua voz, que ia do contralto ao soprano, marcou época como intérprete e uma das grandes estrelas dos anos 40 e 50. Filho de um carpinteiro e clarinetista nas horas vagas, Mário Antônio de Oliveira, o Mário Carioca, e da portuguesa Alice do Espírito Santo Oliveira, nascida em Portugal mas naturalizada brasileira, doméstica que trabalhava fazendo salgadinhos para vender. Teve mais três irmãs meninas, Nair, Margarida e Lila, e um irmão que nasceu com problemas de saúde e morreu ainda criança. Órfã de paii aos oito anos, Dona Alice resolveu, então, tentar a vida na capital paulista, onde arrumou emprego de governanta. As três filhas entraram par um internato de irmãs de caridade, o Internato Tamandaré, onde ela teve aulas de piano, órgão e canto. Devido uma séria infecção nos olhos, saiu do internato (1928) e trabalhou então como arrumadeira, como babá e ajudante de cozinha em restaurantes. Depois, conseguiu um emprego de faxineira em uma escola de dança onde havia um piano e, dona de uma poderosa voz, iniciou sua carreira. Passou a usar o nome de Dalva, sugerido pela mãe, pois um seu amigo empresário não achava que seu nome não era bom para uma cantora. Aconselhada a ir para o Rio de Janeiro, pois na Capital Federal teria mais chances, transferiram-se com a família para o Rio de Janeiro (1934), onde foram morar à Rua Senador Pompeu, na tentativa de deslanchar artisticamente como cantora. Empregou-se como costureira numa fábrica de chinelos, da qual um dos proprietários, o Milton Guita, conhecido como Milonguita era diretor da Rádio Ipanema, a atual Mauá, e este convidou-a para um teste na Rádio Ipanema. Aprovada, logo depois transferiu-se para as Rádios Sociedade e Cruzeiro do Sul, onde cantou ao lado de Noel Rosa. Depois, passou pela Rádio Philips e finalmente conseguiu trabalho na Rádio Mayrink Veiga. Trabalhou (1936) na temporada popular da Casa de Caboclo, do Teatro Fênix, onde atuou ao lado de Jararaca e Ratinho, Alvarenga e Ranchinho, Ema D'Ávila, Diamantina Gomes e Antônio Marzullo. No mesmo período, trabalhou na Cancela, em São Cristóvão, num teatro regional onde ela apresentava números imitando a atriz Dorothy Lamour, e lá conheceu Herivelto Martins, com quem fez dupla e casou-se (1937) e o casal teve seus dois filhos, o cantor Pery Ribeiro e o produtor de programas televisivos da TV Globo, Ubiratã. Gravaram o primeiro disco (1937) na RCA Victor, com as músicas Itaguaí e Ceci e Peri, razão do nome do seu primeiro filho, o futuro cantor Pery Ribeiro. Transferiram-se para a Rádio Tupi e para a gravadora Odeon. Participou do filme Berlim na batucada (1944) e Caídos do céu (1946). Separou-se (1947) de Herivelto e casou-se (1949) com o argentino Tito Clement e foram morar em Buenos Aires. Retornou ao Brasil (1950), separou-se (1963) de Clement e depois casou-se com Manuel Carpinteiro. Sofreu um grave acidente automobilístico (1965), sendo obrigada a abandonar a carreira por alguns anos. Retornou (1970), lançando um dos grandes sucessos do ano e também seu último: Bandeira branca, marcha-rancho de Max Nunes e Laércio Alves. Morando em uma confortável casa no bairro carioca de Jacarepaguá, no Rio de Janeiro, fez apresentações no Teatro Tereza Raquel e em vários programas de televisão e em shows e faleceu dois anos depois vítima de hemorragia no esôfago.
Fonte.: NetSaber



CLEMENTINA DE JESUS

07/02/1901, Valença (RJ)
19/07/1987, Rio de Janeiro

A vida de Clementina de Jesus tinha tudo para ser igual à de milhões de pobres brasileiros se não fossem a sua insistência em cantar, a sua voz e o destino. Ainda menina, costumava acompanhar a mãe, uma lavadeira que gostava de cantar corimas, jongos, lundus, incelenças e modas, enquanto trabalhava. Foi provavelmente nesta época que aprendeu os cantos de escravos que, anos mais tarde, fariam a sua fama.

Com apenas dez anos, foi morar com a família em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro. Um vizinho, que sempre escutava a menina Clementina de Jesus cantando dentro de casa, ofereceu para a garota o papel de solista em procissões e festas religiosas. Após a morte do pai, a situação financeira da família ficou muito complicada e Clementina de Jesus não teve outra alternativa a não ser trabalhar como empregada doméstica, lavadeira e passadeira. Durante mais de 20 anos, esta foi a atividade que a sustentou.

Pouco tempo antes de morrer, em um depoimento, Clementina de Jesus disse que todos os integrantes da casa onde trabalhou como empregada doméstica gostavam de ouvi-la cantar, com exceção da proprietária, que dizia que a sua voz era irritante, por parecer um miado de gato. No final dos anos 20, passou a freqüentar blocos de Carnaval que, depois, seriam transformados em escolas-de-samba.Depois de dois casamentos, um deles com Albino Correia da Silva, o Pé Grande, um torcedor fanático da escola de samba da Magueira, o destino bateu à porta de Clementina de Jesus e a empregada doméstica deu lugar a uma cantora que marcou época na música popular brasileira.

Seu canto rouco e quase falado, fora dos padrões estéticos, conquistou a crítica, compositores, artistas e, principalmente, o povo. Um dos retratos do sincretismo brasileiro, Clementina de Jesus estabeleceu uma ponte entre o folclore dos terreiros de candomblé com a linguagem contemporânea. Finalmente, em 1964, quando já contava com 62 anos, a cantora teve a sua grande oportunidade profissional.

O compositor e produtor Hermínio Belo de Carvalho, que já tinha visto Clementina de Jesus se apresentar em bares do Rio de Janeiro, convidou-a para fazer alguns shows. No dia 7 de dezembro do mesmo ano, depois de ouvir um recital clássico (Mozart e Villa-Lobos), o público que lotava o Teatro Jovem, em Botafogo, ficou assustado ao ver entrar no palco uma cantora de voz anasalada, acompanhada por Paulinho da Viola, César Faria e Elton Medeiros.

O sucesso foi imediato, a ponto de Hermínio Belo de Carvalho criar o musical "Rosas de Ouro", que percorreu as principais capitais brasileiras. Chamada de "Tina" ou "Quelé" pelos amigos, Clementina de Jesus gravou mais de 120 músicas e participou de discos de outros artistas, como Milton Nascimento, por exemplo.

O compositor Paulinho da Viola, que teve duas músicas de sua autoria, "Essa Nega Pede Mais" e "Na Linha do Mar" incluídas no disco "Marinheiro Só", um dos maiores sucessos de Clementina de Jesus, contou em diversas entrevistas que a cantora era fascinante. "Tudo o que se fala de Clementina de Jesus não tem a dimensão da presença dela. Ouvi-la cantando, sentada, com o seu vestido de renda, era algo absolutamente fascinante, difícil de transmitir, de traduzir em palavras." Pobre, Clementina de Jesus morreu aos 85 anos, no dia 19 de julho de 1987.

Durante mais de 20 anos, Clementina trabalhou como lavadeira e passadeira

 

CYRO MONTEIRO

Cyro Monteiro nasceu no Rio de Janeiro, em 28.5.1913, na Estação do Rocha, sendo o quarto de nove irmãos, todos com nomes começados com "C". Era sobrinho do grande pianista de samba Nonô (Romualdo Peixoto) e tio de Cauby Peixoto. Passou a infância e a juventude em Niterói. Cantava em festas e rodas de amigos. Fazia dueto com seu irmão Careno, inspirados na dupla Sylvio Caldas-Luiz Barbosa. Numa emergência, já que conhecia todo o repertório deles, a pedido do próprio Sylvio, foi substituir Luiz Barbosa num programa da Rádio Educadora. Isso em 1933. Preferiu, porém, voltar a Niterói, não desfazer a dupla com o irmão e não deixar seu ambiente!

No ano seguinte, foi levado para um teste na Rádio Mayrink Veiga. Aprovado, foi escalado para um programa diurno, mas logo subiria para os noturnos, com Carmen Miranda, Francisco Alves, Mário Reis, Custódio Mesquita, Noel Rosa, Gastão Formenti e outros cartazes. Se Luiz Barbosa marcava o ritmo no chapéu de palha, e Joel de Almeida foi seu seguidor, Cyro descobriu na caixa de fósforo sua característica "instrumental".

Grava seu primeiro disco na Odeon, para o carnaval de 1936, com sambas Vê Se Desguia e Perdoa, sem maior repercussão, mesmo porque o ano foi concorridíssimo. Em 1937, por encomenda, para promoção da festa da Uva de Jundiaí, grava dois discos particulares na R.C.A. Victor. Finalmente, em meados de 1938, grava o samba Se Acaso Você Chegasse (Lupicínio Rodrigues-Felisberto Martins), que abre o caminho para ele e Lupicínio. Era seu primeiro disco na R.C.A. Victor. Cyro tinha voz, ritmo, sabia modular e improvisar. Notável também era sua capacidade de fazer amigos, mercê do seu calor humano e infinita bondade.

"Uma criatura de qualidades tão raras que eu acho deplorável qualquer de seus amigos não se haver dito, num dia de humildade, que gostaria de ser Cyro Monteiro. Pois Cyro, pra lá do cantor e do homem excepcional, é um grande abraço em toda a humanidade. "(Vinícius de Moraes, contracapa de Senhor Samba, Colúmbia Lp. 37.190, 1961).

"Formigão" para os amigos, e "O Cantor das Mil e uma Fãs", para todos os seus admiradores, torcedor do Flamengo, mas um flamenguista de que até os "adversários" gostavam, faleceu no Rio, em 13.7.1973, com 60 anos. Foi sepultado, com grande acompanhamento, no São João Batista, "ao som da marcha do Flamengo, cantada por integrantes da torcida jovem, coberto com a bandeira do clube e da Estação Primeira de Mangueira".

"Um desfalque que a bossa de nenhum outro cantor poderia jamais preencher. (...) O sobrinho de Nonô, de quem Vinícius pedia a bênção, demonstrou, ao longo de toda a sua carreira artística, fidelidade absoluta à espécie de música que abraçou, desde o princípio." (Mário Leônidas Casanova).

Esta biografia foi publicada inicialmente no site de um dos mais importantes projetos culturais de preservação de nossa memória, o Selo Revivendo



CARMEM MIRANDA

Carmem Miranda
(Cantora e atriz brasileira)
9-2-1909, Marco de Canavezes, Portugal
5-8-1955, Beverly Hills, Estados Unidos

Carmem Miranda marcou tanto com seu jeito de cantar, revirando os olhos, mexendo as mãos e gingando, com seu sorriso contagiante e a graça de seus trajes cheios de balangandãs, que até hoje, mais de 40 anos após sua morte, é o símbolo brasileiro mais conhecido no mundo. Mais do que uma voz, foi um fenômeno do show business norte-americano. Aportando nos Estados Unidos no início da Segunda Guerra Mundial, representou vivamente a terra desconhecida e exótica, cheia de coqueiros, bananas, abacaxis, atendendo às necessidades fantasiosas e consumistas do povo norte-americano e alcançando a glória e a fortuna. De volta ao Brasil, depois de um ano ausente, foi recebida sob vaias em um show no Cassino da Urca, que abriu cantando South American Way. Em resposta bem-humorada ao público, lançou logo em seguida novo show, Disseram que Voltei Americanizada, de Vicente Paiva e Luiz Peixoto. Nascida Maria do Carmo Miranda da Cunha, em Marco de Canavezes, em Portugal, veio com 1 ano para o Rio de Janeiro. Depois de apresentar-se em bares cariocas interpretando Carlos Gardel, aos 20 anos gravou seu primeiro disco, com músicas como Não Vá Sim'bora e Se o Samba É Moda, de Josué de Barros, e se apresentou pela primeira vez no rádio, com Iaiá Ioiô, também de Josué de Barros. Tornou-se famosa ao gravar a marcha carnavalesca Pra Você Gostar de Mim (Taí, 1931), de Jubert de Carvalho, que vendeu mais de 35 mil discos. Em meio aos foliões, participou, em 1933, de seu primeiro longa-metragem, o documentário A Voz do Carnaval, de Adhemar Gonzaga e Humberto Mauro. Seu último filme no Brasil foi lançado às vésperas do Carnaval de 1938: Bananas da Terra, de João de Barro, no qual interpretou pela primeira vez a música O Que É Que a Baiana Tem?, de Dorival Caymmi, lançando definitivamente para o sucesso tanto o compositor como sua baiana estilizada. A convite do empresário norte-americano Lee Schubert, embarcou com o grupo Bando da Lua para os Estados Unidos, em 1939. Estreou na Broadway, cativando de imediato a crítica e o público norte-americanos. Quatro anos depois, fez seu melhor filme, The Gang's All Here (1943), dirigido por Busby Berkeley, no qual faz o número mais famoso: The Lady in the Tutti-Frutti Hat, cantando num cenário tropicalíssimo, com bananas gigantescas se movendo. Foram ao todo 14 filmes no exterior, rodados de 1940 a 1953.


Fonte.: Net Saber

ARY BARROSO

7/11/1903, Ubá (MG)
9/2/1964, Rio de Janeiro (RJ)

Ary Evangelista Barroso, filho de João Evangelista Barroso e Angelina de Resende Barroso, fica órfão ainda menino e passa a ser criado pela avó, Gabriela Augusta de Rezende, e pela tia, Rita, que o ensina a tocar piano.

Aos 12 anos, começa a trabalhar como pianista auxiliar no cine Ideal, em Ubá. Aos 17, recebe uma herança do tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, e muda-se para o Rio de Janeiro com a intenção de estudar advocacia. Começa a faculdade, mas acaba gastando todo o dinheiro em restaurantes, bebidas e roupas.

No ano seguinte, é reprovado e, já sem dinheiro, tem de trabalhar: faz fundo musical para filmes mudos no cine Íris, no largo da Carioca. Em 1923, passa a tocar com a orquestra do maestro Sebastião Cirino, na sala de espera do teatro Carlos Gomes.

Em 1926, Ary consegue voltar para o curso de direito, mas não abandona a atividade de pianista, oferecendo-se para tocar em bailes e festas. Dois anos depois, é contratado pela orquestra do maestro Spina, de São Paulo, para uma temporada em Santos e Poços de Caldas. Durante os oito meses de viagem, compõe várias músicas.

Volta para o Rio em 1929. "Vamos Deixar de Intimidade" é gravada pelo amigo e colega de faculdade Mário Reis e transforma-se no primeiro sucesso de Ary Barroso. Ele conclui o curso de direito e compõe a marcha "Dá Nela". Inscrita no concurso de músicas carnavalescas da Casa Edison para o Carnaval de 1930, a música obtém o primeiro lugar. Com o prêmio (cinco contos de réis), Ary paga algumas dívidas e se casa com Ivone Belfort de Arantes.

Em 1931, produz várias composições para o teatro musicado. Em junho daquele ano, o teatro Recreio encena a revista "É do Balacobaco". A música "Na Grota Funda", de Ary, com letra do caricaturista J. Carlos, é parte do espetáculo. Na estréia, Lamartine Babo, encantado com a música, resolve escrever outra letra para a melodia. Assim nasce "No Rancho Fundo", lançada dias depois no programa que Lamartine comandava na Rádio Educadora do Rio.

Em 1932, Renato Murce convida Ary para trabalhar na Rádio Philips. Além de pianista, Ary se torna locutor esportivo, humorista e animador. Em 1934, depois de ter ido à Bahia como pianista da orquestra de Napoleão Tavares, ele cria na Rádio Cosmos (São Paulo) o programa "Hora H". Compõe "Na Batucada da Vida" (regravada por Elis Regina em 1974).

No ano seguinte, leva seu programa para a Rádio Cruzeiro do Sul (Rio de Janeiro) e compõe "Inquietação", lançada por Sílvio Caldas naquele ano (e regravada por Gal Costa em 1980).

Em 1937, Ary lança outro programa na Cruzeiro do Sul: "Calouros em Desfile" (que, nos anos 1950, será levado para a TV Tupi). O programa exige que os candidatos cantem somente música brasileira e anunciem o nome dos compositores. Nele se apresentarão, entre outros, Angela Maria e Lúcio Alves.

Ary estréia na Rádio Tupi em 1938, como comentarista, humorista, ator e locutor. Compõe "Na Baixa do Sapateiro" (gravada por Carmen Miranda) e chama a atenção do mundo com a trilha sonora do desenho animado "Você Já Foi à Bahia?", de Walt Disney.

"Aquarela do Brasil" é lançada em 1939 no espetáculo "Joujoux et Balangandans", de Henrique Pongetti. Aquele samba-exaltação, de melodia extensa, apoiado em grande orquestra, conquista o mercado internacional e faz sucesso no Brasil na gravação de Francisco Alves. Ele abre com estes versos, dentre os mais famosos da música popular brasileira: "Brasil/ Meu Brasil brasileiro/ Meu mulato inzoneiro/ Vou cantar-te nos meus versos/ O Brasil, samba que dá/ Bamboleio que faz gingar/ O Brasil do meu amor/ Terra de Nosso Senhor/ Brasil!/ Brasil!/ Pra mim./ Pra mim."

Em 1944, Ary vai conhecer os EUA e compõe "Rio de Janeiro" para o filme "Brasil". Fica oito meses lá, ganhando mil dólares por semana e compondo a canção-tema do filme "Três Garotas de Azul". No ano seguinte, volta à América do Norte para musicar o filme "O Trono das Amazonas", que teria 18 composições suas mas não chega a ser concluído (por causa da morte do produtor).

Nas eleições de 1946, candidata-se a vereador na Guanabara pela União Democrática Nacional (UDN) e tem a segunda maior votação da Câmara do então Distrito Federal (só perde para Carlos Lacerda). Em seguida, participa ativamente da escolha do local onde se construirá o Maracanã.

Aurora Miranda (irmã de Carmen) grava "Risque" em 1952, mas é na voz de Linda Baptista que esse samba-canção obterá sucesso. Naquele mesmo ano, Ary compõe "Folha Morta", gravada por Dalva de Oliveira em Londres (para a Odeon) e lançada no Brasil com estrondoso sucesso. Quatro anos depois, a música é regravada por Jamelão, na Continental.

A princípio, Ary Barroso não gosta da Bossa Nova, mas isso não o impedirá de colocar "A Felicidade" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) entre as dez melhores músicas populares de todos os tempos.

Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos se encontram no palácio do Catete em 1955, para receber a Ordem do Mérito, concedida pelo presidente Café Filho. Em 1957, Ary é homenageado com o espetáculo "Mr. Samba", produzido por Carlos Machado e montado na boate Night and Day (Rio de Janeiro); o roteiro faz alusão à biografia de Ary, utilizando as próprias composições dele.

Em 1961, Ary adoece de cirrose hepática e vai morar num sítio em Araras (RJ). No ano seguinte, parcialmente restabelecido, retoma o programa "Encontro com Ary" (TV Tupi), transmitido aos domingos. Em 1963, é internado com nova crise de cirrose. Recupera-se no Natal, mas volta a ser internado e morre na noite de 9 de fevereiro de 1964, um domingo de Carnaval, no momento em que a escola de samba Império Serrano entra na avenida com o enredo "Aquarela do Brasil". Em homenagem ao compositor, faz-se um minuto de silêncio.
Fonte.: Uol Educação

 

PIXINGUINHA

(1897-1973) Alfredo da Rocha Vianna, flautista, saxofonista, compositor, cantor, arranjador e regente. Nasceu no dia 23/4/1897, Rio de Janeiro, RJ, e morreu no dia 17/2/1973 na mesma cidade.
Há uma controvérsia em torno de seu verdadeiro nome. Na certidão de batismo, consta apenas o nome de Alfredo. Já na certidão de nascimento, consta o mesmo nome de seu pai, Alfredo da Rocha Vianna. De acordo com o livro Filho de Ogum Bexiguento 1, "alguns documentos particulares (recibos, carteirinhas de clube, jornais) registram-no como Alfredo da Rocha Vianna Filho. Já a certidão de óbito, além de diversos jornais, falam de Alfredo da Rocha Vianna Júnior." Mas ao que parece, Pixinguinha não se importava muito com isso. Uma outra controvérsia se deu por volta de seu septuagésimo aniversário, quando seu amigo Jacob do Bandolim lhe contou que obtivera na Igreja de Santana a certidão de batismo do compositor, que indicava a data correta de seu nascimento: 23 de abril de 1897, ou seja, um ano antes da data que Pixinguinha pensava ter nascido: 23 de abril de 1898. Quando este soube do fato, pediu a Jacob que não comentasse com ninguém, porque seria frustrante para muita gente saber que todas aquelas comemorações (das quais participaram célebres políticos e alguns dos maiores nomes da MPB) não tinham razão de ser, uma vez que o 70º aniversário ocorrera um ano antes. Pixinguinha detestava confusão".2

Filho de Raimunda Maria da Conceição e Alfredo da Rocha Vianna, Pixinguinha tinha treze irmãos, sendo quatro do primeiro casamento de sua mãe. Sua infância se deu num casarão de oito quartos no bairro do Catumbi, onde morava toda a sua família, e ainda no porão, tinha espaço para hóspedes amigos da família como Sinhô, Bonfiglio de Oliveira, Irineu de Almeida, entre outros. Por isso, o casarão ficou conhecido como "Pensão Viana".

Pixinguinha era conhecido como "Pizindin" (menino bom) apelido dado por sua avó Edwiges, que era africana. Três de suas irmãs afirmaram, certa vez, em um depoimento, que quem deu esse apelido a Pixinguinha foi uma prima, Eurídice, e que a família acabou transformando "Pizindin" em "Pizinguim" (que segundo Almirante significa pequeno bobo em dialeto africano). De acordo com o depoimento do próprio compositor para o MIS, o apelido "Pixinguinha" surgiu da fusão do apelido "Pizindin" com o de "Bexiguinha", herdado ao contrair "Bexiga" (varíola) na época da epidemia, que deixou marcas em seu rosto.

Seus estudos curriculares começaram com o professor Bernardes, na base da palmatória. Passou depois para o Liceu Santa Teresa, onde teve Vicente Celestino como colega, e posteriormente para o Mosteiro de São Bento, onde futuramente também estudaria o compositor Noel Rosa. Mas o negócio de Pixinguinha era a música, e não a escola. Então, um tempo depois, ele largou o Mosteiro com apoio da família para se profissionalizar.

Quase todos na sua casa tocavam algum instrumento: Edith tocava piano e cavaquinho, Otávio (mais conhecido como China) tocava violão de 6 e 7 cordas e banjo, cantava e declamava. Henrique e Léo tocavam violão e cavaquinho. Hermengarda não se tornou cantora profissional diante da proibição do pai. Pixinguinha começou seu aprendizado musical inicialmente com seus irmãos, que lhe ensinaram cavaquinho. Seu pai tocava flauta e promovia muitas festas em casa, das quais participavam chorões famosos, como por exemplo Villa Lobos, Quincas Laranjeira, Bonfiglio de Oliveira, Irineu de Almeida, entre outros. Pixinguinha cresceu ouvindo essas reuniões musicais, e, no dia seguinte a cada noitada, tirava de ouvido os chorinhos aprendidos na noite anterior, numa flauta de folha. Mas seu grande sonho mesmo era aprender a tocar requinta (uma espécie de clarinete). Não tendo dinheiro para comprar o instrumento para o filho, Alfredo foi lhe ensinando a tocar flauta mesmo.

Como dissemos, o respeitado flautista Irineu de Almeida que morava na "Pensão Viana" nessa época, começou também a passar seus conhecimentos para Pixinguinha, que progredia assustadoramente. Entusiasmado com a rapidez de seu aprendizado, seu pai presenteou-lhe com uma flauta italiana da marca Balancina Billoro. Com essa flauta, além de tocar em bailes e quermesses, em 1911 Pixinguinha estreou em disco, como integrante do conjunto Pessoal do Bloco.

Seu primeiro emprego como flautista foi na Casa de Chope La Concha. Depois disso tocou em vários cassinos, cabarés, bares, tornando-se em pouco tempo conhecido nas noites da Lapa. Apresentava-se nos cinemas, com as orquestras que tocavam durante a projeção dos filmes mudos. Tocou também em peças do teatro Rio Branco, substituindo o flautista Antônio Maria Passos, que adoecera. Quando Passos voltou, surgiram reclamações de todos os lados, porque estavam todos acostumados com os shows de improviso que Pixinguinha fazia. Assim, um tempo depois, Passos perdeu seu lugar para o jovem flautista.

Sua primeira composição é de 1911, o choro Lata de leite. Segundo o livro Filho de Ogum Bexiguento, essa música "foi inspirada no costume dos chorões de beberem o leite que os leiteiros já haviam deixado nas portas das casas quando, de madrugada, retornavam das tocatas com seus instrumentos".

No final da 1º guerra (1919), em decorrência à gripe espanhola, as salas de cinema ficavam vazias, pois todo mundo temia ficar em lugares fechados com medo de ficar doente. Então, para atrair o público, o Cinema Odeon contratou Ernesto Nazareth para tocar piano na sala de espera. Preocupado com a concorrência, Isaac Frankel, gerente do Cinema Palais que ficava quase em frente ao Odeon, convidou Pixinguinha a formar um conjunto para tocar na sala de espera. Assim surgiu o conjunto Oito Batutas. Os integrantes do grupo eram Pixinguinha (flauta), Donga (violão), China (violão e voz), Nelson Alves (cavaquinho), Raul Palmieri (violão), Luiz Pinto da Silva (bandola e reco-reco), Jacob Palmieri (pandeiro) e José Alves Lima (bandolim e ganzá), posteriormente substituído por João Pernambuco (violão).

O repertório do grupo variava entre modinhas, choros, canções regionais, desafios sertanejos, maxixes, lundus, corta-jacas, batuques, cateretês etc. Em várias apresentações os integrantes do grupo adotaram pseudônimos sertanejos. Pixinguinha por várias vezes foi "Zé Vicente".

De 1919 a 1921 o grupo fez uma turnê no interior e capital de São Paulo, Minas Gerais, Paraná, Bahia e Pernambuco. De volta ao Rio, começaram a tocar no Cabaré Assírio, no subsolo do Teatro Municipal. Foi lá que conheceram Arnaldo Guinle, milionário e fã do grupo que patrocinou uma temporada para os Oito Batutas em Paris. Impossibilitados de sair da cidade, os irmão Palmieri e Luiz Pinto da Silva foram substituídos por Feniano, José Monteiro e J. Thomás, respectivamente, sendo que J. Thomás adoeceu, ficando o grupo reduzido a sete integrantes. Em 29/1/1922 eles embarcaram para a Europa, mas com o nome de Os Batutas (em francês "Les Batutas"). O sucesso foi imediato, mas a ida do grupo causou polêmica. Muita gente se sentiu honrado pela representação do Brasil lá fora, outras pessoas preconceituosas se sentiram envergonhadas, "taxavam a viagem de desmoralizadora do Brasil e pediram até providências por parte do Ministro do Exterior."

A turnê estava programada para um mês, mas devido ao tremendo sucesso, acabaram ficando por lá 6 meses e só voltaram porque a saudade era grande. Os Oito Batutas voltaram com influência jazzística na bagagem. Pixinguinha ganhou um saxofone de Arnaldo Guinle que muitos anos depois iria substituir a flauta. Donga substituiu o violão pelo banjo e eles também incorporaram instrumentos ainda desconhecidos na música popular, como pistão, trombone e clarineta. Continuaram tocando no Assírio, e em vários outros locais, até que surgiu uma outra viagem, desta vez para a Argentina onde embarcaram, não se sabe ao certo, entre dez/22 e abril/23. Novamente o grupo foi modificado: Pixinguinha (flauta e saxofone), J. Thomás (bateria), China (violão e voz), Donga (violão e banjo), Josué de Barros (violão), Nelson Alves (cavaquinho), J. Ribas (piano) e José Alves (bandolim e ganzá). O sucesso foi grande, mas as divergências foram maiores, e o grupo se dividiu, ficando metade sob a liderança de Pixinguinha e China, e a outra metade com Donga e Nelson Alves. O grupo liderado por Pixinguinha ficou na Argentina, enquanto que a outra parte liderada por Donga voltou ao Brasil. Os que na Argentina ficaram tiveram sérios problemas de sobrevivência. Depois de levar um golpe de um empresário que fugiu com todo o dinheiro do grupo, a única saída era apelar. E foi o que eles fizeram. Josué de Barros (que alguns anos depois seria o descobridor de Carmen Miranda) resolveu dar uma de faquir, ficando enterrado vivo durante dez dias, para ver se arranjavam dinheiro para pelo menos voltar para o Brasil, mas no terceiro ou quarto dia teve que desistir da idéia, pois o calor era grande e a esposa do chefe de polícia, sensibilizada, pediu que ele desistisse. O retorno ao Brasil se deu com a ajuda do consulado brasileiro em Buenos Aires.

Além dos Oito Batutas, Pixinguinha em sua carreira liderou várias formações musicais, tais como: Orquestra Típica Pixinguinha-Donga (1925), Orquestra Victor Brasileira, Orquestra Típica Victor (1930), Grupo da Guarda Velha (1931), Diabos do Céu (1933), Cinco Companheiros (1937), a dupla Benedito Lacerda & Pixinguinha (1946) e o grupo Velha-Guarda (1956). Conforme o pesquisador Tarik de Souza, através da indicação de Heitor Villa Lobos, Pixinguinha liderou o grupo (com Cartola, Donga, Zé da Zilda, Jararaca, Luiz Americano) que gravou em 1940 com o maestro norte-americano Leopold Stokowski (o mesmo que regeu a trilha sonora do filme Fantasia de Walt Disney), à bordo do navio Uruguai, dentro do plano do presidente Roosevelt de fortalecimento dos laços culturais com vizinhos aliados durante a Segunda Guerra.

Quando Pixinguinha trabalhou como regente na peça Tudo Preto, conheceu a atriz e cantora Jandira Aymoré, que chamava-se na verdade Albertina Pereira Nunes (Betí, para Pixinguinha). Casaram-se em 05 de janeiro de 1927. Oito anos depois, foi comprovada a existência de um problema de esterilidade no casal, que então resolveu adotar um filho, Alfredo da Rocha Vianna Neto.

Em agosto de 1928 faleceu seu irmão e melhor amigo, China, aos 37 anos, com aneurisma da aorta, enquanto esperava ser atendido na sala de espera de um consultório médico.

Pixinguinha levou o título de ser o primeiro orquestrador da Música Popular Brasileira. É dele a famosa introdução da música O teu cabelo não nega, de Lamartine Babo e os Irmãos Valença e de Taí, de Joubert de Carvalho (sucesso lançado por Carmen Miranda). Ou seja, ele pode ser considerado co-autor de dezenas de músicas as quais lhe coube a "função" de escrever as introduções. Em 1929, quando foi contratado pela RCA Victor para ser orquestrador exclusivo da gravadora, inaugurou essa prática ainda não existente no Brasil.

Diante do conselho de vários de seus amigos, Pixinguinha foi fazer um curso de música, para adquirir um pouco de teoria e recebeu o diploma em outubro de 1933. Foi quando recebeu um convite para assumir o cargo de fiscal da Limpeza Urbana Pública, mas não para cuidar da limpeza da cidade, e sim para que ele fundasse uma banda, a Banda Municipal. Mas como não combinava, o litro de pinga que ele tomava antes de cada ensaio, com a disciplina militar da banda, e ainda somando sua ojeriza em usar a farda com botas de cano longo, foi logo transferido para a carreira burocrática, que escalou, passo a passo, até se aposentar, em 1966 como Professor de Artes.

Em 1946, Pixinguinha, com as mãos trêmulas devido à bebida e sem embocadura, trocou a flauta pelo saxofone definitivamente. Unindo-se ao flautista Benedito Lacerda, formou uma dupla que gerou muitos comentários e dúvidas nos meios musicais, porque a fama de Benedito era de apossar-se de músicas alheias. Ao que parece, Benedito e Pixinguinha fizeram um acordo. Sem dinheiro para pagar a casa que havia comprado e que estava hipotecada, Pixinguinha recorreu ao amigo que lhe conseguiu o dinheiro, em troca de parceria.

Pixinguinha também fez a trilha sonora de dois filmes: Sol sobre a lama de Alex Vianny e Um dia qualquer.

Em 1956 Pixinguinha recebeu a homenagem do prefeito Negrão de Lima, através da inauguração da rua Pixinguinha, em Olaria, onde morava o compositor.

Foi na terceira complicação cardíaca, em 1964, que Pixinguinha teve que ficar internado por mais de um mês, além de ter que abdicar à bebida, comida e parar de tocar saxofone, retornando a seus velhos hábitos dois anos depois. Quando o médico, algum tempo depois, lhe deu alta para tocar saxofone novamente, Pixinguinha chorou. Enquanto esteve hospitalizado, Pixinguinha compôs 20 músicas, e para cada uma dava um título relacionado com alguma coisa que acontecia no hospital. Uma delas, por exemplo, se chamou Manda brasa, expressão que ouviu da cozinheira, quando ia almoçar. Num momento que estava sozinho escreveu Solidão, e quando recebeu alta escreveu Vou pra casa.

Seu filho Alfredo casou-se em janeiro de 1971. No ano seguinte, Betí ficou seriamente doente e foi internada no hospital. O coração de Pixinguinha, já fraco, não agüentou. Sofreu um enfarte, e foi parar no mesmo hospital que a esposa estava internada. Como o estado de Betí era mais grave do que o de Pixinguinha, pai e filho combinaram que todos os dias, no horário de visita, o compositor vestiria seu terno, seu chapéu, e levaria um buquê de flores para a esposa, que, alguns dias depois, mais precisamente em 07 de junho de 1972, aos 73 anos, morreu, sem saber do estado do marido.

Depois da morte de Betí, Alfredo Neto foi morar com sua esposa na casa do pai, para lhe fazer companhia. Em janeiro de 1973 nasceu o primeiro neto de Pixinguinha. Em 17 de fevereiro de 1973, Pixinguinha teve outro enfarte, durante um batizado no qual seria padrinho. Apesar de ter sido socorrido às pressas, Pixinguinha morreu ali mesmo, dentro da igreja, aos 74 anos.

Várias homenagens póstumas lhe foram prestadas, entre elas, a da Portela, que, no carnaval seguinte levou para a Avenida o samba-enredo O mundo melhor de Pixinguinha, com autoria de Jair Amorim, Evaldo Gouveia e Velha, que lhes rendeu o segundo lugar.

Pixinguinha escreveu, aproximadamente, duas mil músicas. Foi um dos mais férteis compositores da MPB.